Grupo ANPOCS 2008 Painel 1
Informe OPSA:







 

A Telesur e os ideiais bolivarianos de integração latino-americanos: um estudo de caso

Silvia Garcia Nogueira (UEPB)


Resumo:
A rede latino-americana de comunicação Telesur foi criada há cerca de dois anos com objetivos de estímulo à integração regional e como uma alternativa midiática às grandes empresas do setor (BBC, Univisión, CNN). Multiestatal, com sede na Venezuela, é apoiada pelo presidente Hugo Chavez e procura oferecer abordagens e conteúdos excluídos em geral pelo que os idealizadores da rede chamam de ditadura midiática. A Telesur apresenta-se como um meio através do qual a "pluralidade de vozes" da região possa ser revelada. Nessa perspectiva, a integração desejada - a própria razão de ser da rede - seria resultado de um pocesso de compartilhamento de conteúdos culturais diversos, porém de experiências compartilhadas frente à hegemonia norte-americana. Este trabalho pretende, portanto, apresentar e discutir o modo como a Telesur e os meios de comunicação em geral operam em processos de integração.

Resumo expandido:
O relacionamento com a mídia é uma marca da interação social moderna. Partindo dessa premissa, este trabalho pretende discutir as implicações concretas e simbólicas que as atividades da Telesur provocam no cenário atual, do ponto de vista da construção de uma identidade latino-americana através da mídia. Ao veicular o que seus dirigentes chamam de “diversidade cultural” de uma região que possui, segundo eles, laços históricos e sociais, a rede objetiva colocar em prática ideais bolivarianos de integração regional. Nesse sentido, o domínio dos meios de comunicação parece ocupar um papel central na estratégia política adotada pelo presidente venezuelano Hugo Chávez, para quem o jogo politico mundial, hoje, se confunde com o jogo midiático. Tem-se, assim, nesse contexto, que se em um plano a identidade latino-americana é construída em oposição à identidade norte-americana, em outro, a oposição ocorre entre a Telesur e as redes “imperialistas” (termo utilizado pela Telesur) de comunicação, como a CNN, a Univisión e a BBC. Dando seguimento, portanto, a uma abordagem que liga os meios de comunicação a dimensões sociais mais amplas, é possível pensar a rede como uma ferramenta fundamental e estratégica, utilizada por seus idealizadores e colaboradores, para o estímulo à integração social e à formação, em seus planos concretos e simbólicos, do que é entendido como uma identidade latino-americana. Ou, em outros termos, de uma comunidade latino-americana. Se na dimensão das relações concretas, políticas e econômicas, o Mercosul, a Comunidade Sul-Americana de Nações e a ALBA representam uma tentativa de integração dessa especificidade regional, no nível cognitivo e simbólico a Telesur pode servir como um instrumento provocador daquela sensação de pertencimento a uma comunidade. O compartilhamento e a difusão de características culturais por meio da rede informacional, de algum modo e em um determinado nível, conectam os receptores das informações, formando redes sociais à distância (ou não) e uma opinião pública que transcende limites geográficos. Situando tal discurso em um debate mais amplo sobre a construção de fronteiras nacionais ou regionais da América, é preciso considerar as assimetrias de diversas naturezas existentes entre os países que formam o continente americano, e os projetos políticos de construção e fortalecimento de uma identidade latino-americana. Tais projetos constituem, atualmente, uma estratégia de sobrevivência política, econômica e cultural de uma região, em um cenário internacional no qual as relações entre os Estados tendem a ocorrer não mais somente entre países, mas entre blocos deles. A tentativa de construção de uma identidade latino-americana, portanto, ocorre como um meio de fortalecer a autonomia regional, uma forma de fazer frente ao que Hélio Jaguaribe classifica como o campo gravitacional das Américas, os Estados Unidos. Nesse sentido, mas sob outro ângulo, seguindo o princípio contrastivo mais elementar dos processos de formação de identidade, a integração latino-americana desejada pretende representar-se como uma resposta contrária ao “imperialismo americano”, para que, em um jogo de relações em que forças são medidas constantemente, as chances de disputa econômica, política e cultural sejam maiores. Se no plano retórico, esse ideal de integração está presente em vários discursos venezuelanos e na razão de ser da Telesur, um dos desafios atuais é encontrar o ponto de equilíbrio entre esse senso de pertencimento comunal e a noção de individualidade, a combinação da idéia de igualdade com a de subjetividade, a conciliação entre o global e o local. Independente do aspecto em relevo, um elemento fundamental na constituição desses processos de formação de identidade nacional ou regional está relacionado ao imperativo de que para tal é preciso reconhecer-se e ser reconhecido. Nesse sentido, a utilização dos meios de comunicação de massa pelos agentes sociais envolvidos torna-se uma estratégia fundamental para alcançar aquilo que pode vir a lhes proporcionar reconhecimento: a visibilidade. Ser conhecido é, de várias maneiras, ser reconhecido. O modo como os distintos atores se relacionam com a mídia e os objetivos pretendidos variam, mas o recurso à visibilidade e à publicização que os veículos de comunicação de massa possibilitam parece ser uma estratégia comum, compartilhada. Há, portanto, nesse tipo de ação, uma dimensão de cálculo, entendido como estratégia política, utilizado por segmentos sociais nas suas relações com a imprensa. Assim, a mídia funcionaria, ao mesmo tempo, como representante e divulgadora de uma espécie de modernidade, permitindo que ações ou eventos deixassem de ter que ser presenciados para adquirirem um significado público. A procura dos meios de comunicação por diversos agentes sociais, inseridos em um campo político específico, é uma ação empreendida de administração da visibilidade diante dos outros, um aspecto inevitável da política moderna, que exige um contínuo processo de tomada de decisões sobre o que, a quem e como se pode tornar público. Essas tomadas de decisão costumam levar em consideração tanto os benefícios para o grupo que a exposição pública poderá trazer – a construção de uma certa imagem de si - quanto os riscos que a acompanham – perda de controle da situação e da imagem formada. Tem-se, portanto, que a utilização constante dos meios de comunicação para a difusão de uma série de conteúdos particulares em uma sociedade marcada por relações midiatizadas corresponde a um dos proccessos sociais cotidianos de objetivação de uma dada cultura. Longe de ser um fenômeno atual, a utilização da imprensa para a difusão de conteúdos culturais visando tentativas de homogenização nacionais – o “capitalismo de imprensa”, definido por Benedict Anderson – é um fenômeno da história moderna quando se trata de comunidades imaginadas, formando-se ou querendo constituir-se concretamente como nações. Distante de se apresentar como uma rede de comunicação isenta e imparcial, a Telesur propõe-se justamente a divulgar enfoques particulares sobre assuntos geralmente excluídos ou tratados uniformemente pelas grandes cadeias de comunicação, comprometidas com interesses globais e não locais. Sua proposta de dar espaço para a já citada “pluralidade de vozes” daqueles que seus idealizadores chamam de “povos em luta” é que permite entender a proposta ética de respeito à diversidade, e de combate ao que é entendido por “ditadura midiática”. Este trabalho pretende, assim, apresentar o modo como a Telesur vem participando de um projeto integracionista na América Latina e discutir o papel desempenhado frente tais ideais. Pretende ainda problematizar o envolvimento dos meios de comunicação em processos de integração regional.